Hoje vou falar-te do Nuno. O Nuno Salazar é supervisor num departamento. Ele é responsável por gerir a criação dos projectos que a empresa apresenta a um determinado grupo de clientes da empresa. O Nuno tem um chefe. Esse chefe, além de gerir os vários supervisores e de cumprir com as várias responsabilidades que o seu cargo exige, é também um dos três sócios da empresa. Juntamente com um dos sócios, o chefe do Nuno detém 49% da empresa, divididos em partes igual. Os restantes 51%, como é habitual nos modelos empresariais de hoje, pertencem a um grupo multinacional. Nesta empresa, o Nuno é muito consciente das suas responsabilidades, e, para correctamente desempenhar o seu papel de supervisor, o Nuno, todos os dias por volta das 8 horas da manhã, quando chega ao escritório, antes de entrar, dirige-se primeiro às traseiras do edifício e vomita o pequeno-almoço. Às vezes vomita o jantar da noite anterior também. Isto acontece, como se disse, todas as manhas, por volta das oito.
Ajuda-o a acalmar, mas só no momento de entrar no escritório. O que o Nuno também faz todos os dias, mais do que uma vez, é tomar calmantes. Tem preferência pelos Lexotans, com whisky se for à noite, se for de dia toma simples com água, se a tiver à mão, senão engole-os em seco. Chega a tomar aos cinco e seis por dia. Como é insuficiente para acalmar os nervos, o Nuno, com menos frequência, mas ainda assim muito próximo da repetição diária, faz umas linhas de cocaína, normalmente, ao fim da manhã, ou a seguir ao almoço, e também ao fim do dia, se o trabalho se prolonga pela noite, o que acontece com frequência, e, também, manda uma snifadela rápida, sempre que tem alguma reunião importante com chefes ou com clientes.
O Nuno começou a cheirar cocaína na sua terceira semana de trabalho nesta empresa, o que aconteceu há 5 anos, faz hoje aniversário. Antes disso, o nariz do Nuno nunca tinha aterrado na neve. Nessa altura, ele ainda não era supervisor, inicialmente foi contratado para desenvolver projectos. Mas demonstrou ter o talento que era preciso para subir naquela empresa.
Nessa terceira semana de trabalho, as coisas não estavam a correr bem ao Nuno. Tinha recebido o seu terceiro projecto, tinha-o nas mãos há vinte e quatro horas, durante as quais não abandonara nem por um minuto o edifício do escritório, e ainda assim não conseguira ter nenhuma ideia de como começar a desenvolvê-lo. Os dois projectos anteriores não chegara a finalizá-los. Foram-lhe retirados e atribuídos a outro projectista, há mais tempo na empresa. A decisão de retirar o projecto das mãos do Nuno, ou, visto de outra perspectiva, a decisão de retirar o Nuno do desenvolvimento de cada uma dos projectos anteriores, coubera ao respectivo supervisor responsável pelo projecto em causa, que não fora o mesmo em ambos os casos.
O Nuno tinha sido caçado para ser colaborador naquela empresa. Caçado é um termo muito actual, e descreve adequadamente o processo de selecção e aquisição de pessoas que ocorre em muitas empresas hoje, quando desejam adquirir colaboradores. Então, os supervisores do Nuno andaram a namorá-lo durante cerca de um ano e meio, quando ele ainda estava numa empresa da concorrência. O Nuno tinha então cerca de seis anos de experiência nesta area profissional. Era um jovem talentoso, cheio de resultados positivos que granjearam fama e prémios. Tal qual estrelinhas bruxuleantes no universo escuro, os sucessos do Nuno captaram a atenção desta empresa, a número um do seu mercado, a que era tida como sendo a melhor. Foram atrás dele, e caçaram-no. O Nuno, jovem ambicioso que era, deixou-se caçar de boa vontade pela número um.
No entanto, ao fim de três semanas, dois projectos falhados, e um terceiro com boas perspectivas de alcançar igualmente um fracasso total, o Nuno sentia que as coisas não estavam a correr exactamente como tinha esperado. Sentia-se sem opções, tudo o que tentava não resultava. A única resposta que obtia dos seus superiores representava para ele pouco mais do que um enigma "É o nível de exigência aqui que é muito elevado". O Nuno esforçava-se ainda mais, trabalhava mais horas, usava a imaginação para criar novas respostas que satisfizessem os altos critérios, fazia o que sabia, e nada do que sabia servia. Evidentemente, a solução passava por fazer as coisas de modo diferente. Foi assim que à uma da manhã decidiu aceitar o convite do colega e encher a cabeça da branquinha. Trabalhou toda a noite. Quando o supervisor chegou de manhã deitou fora tudo o que ele fez e obrigou-o a recomeçar do zero. Mas o Nuno queria muito que aquela colaboração resultasse. Por isso, insistiu, insistiu mais, voltou a insistir mais ainda, deixou-se humilhar por todos os supervisores e pelo chefe, repetidas vezes. E, espantosamente, foi conquistando assim o seu lugar na empresa número um. Ao fim de dois anos e meio o chefe promoveu-o a supervisor. Era tudo o que o Nuno mais queria. Com esta promoção veio a psoríase.
- Psoríase? - perguntou ele entre gargalhadas - mas apareceu logo assim? - acrescentou ele com curiosidade.
- Não apareceu imediatamente, veio com o tempo, ao fim de umas semanas começou a cair-lhe o cabelo... - respondi-lhe eu.
- E depois? Ficou com aquelas placas horrorosas?
- Sim ficou, mas sobre isso contar-te-ei outro dia, pareces cansado.
Ele assentiu, com uma expressão contrafeita, não estava habituado a que não lhe concedessem as vontades no momento em que as manifestava.
- Está bem, podes continuar a falar-me do Nuno Salazar mais tarde.
E assim recolhemos os dois, ele afastou-se na direcção do Lamborghini Veneno, acompanhado da motorista Kunoichi, a belíssima e fiel guarda-costas sem nome, e eu caminhei pela calçada abaixo nas minhas sandálias de pescador.
As Pessoas Invisíveis
terça-feira, 1 de abril de 2014
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
Francisco Carvalho_Parte III
Levantou-se, numa explosão, como já dissemos, como quem foge de algo terrível, perna direita à frente, com a esquerda fez uma longa e rápida extensão, e já estava em cima do saco, na sequência do movimento esticou o braço direito, enfiando a mão na bolsa exterior, tirou o telemóvel, olhou para ele, a sua atenção ficou-se instantaneamente no quadrado verde, onde se lia um nome, Margarida, deslizou pelo ecrã táctil o indicador da mão direita, e leu a mensagem, és um fraquinho.
A mensagem bateu-lhe forte. É uma maneira forte de descrever o sentimento de Francisco, até um pouco rude e tosca, que deve pouco ao estilo literário, mas vamos pedir que se aceite a massa bruta, desajeitada e informe que é aquela oração, não queremos fazer mais do que mimetizar em palavras reais, sinónimas de verdade, uma verdade, o estado confuso de Franscisco. No seu íntimo, os sentimentos e a razão, as múltiplas razões que a razão desconhece, movem-se desordenamente e com velocidades vairáveis, e somadas aos ossos, às fibras, à pele, ao suco vermelho da vida, antes do estrondo da mensagem, todos estes elementos formam uma massa rude e informe. Em vez do aforismo, procurámos o realismo, para reconstruir um retrato mais fiel e menos ficcionado da verdade, que a eloquência literária poderia distorcer. Estamos a falar de uma mensagem bruta, que teve a capacidade de fazer explodir o seu destinatário, libertá-lo das forças magnéticas que hoje o atraem para o grau zero do movimento, uma inércia, no sentido da física, uma massa informe, cujo estado Francisco não conseguia alterar sozinho, um estado latente de repouso, letargia, morte em vida, parado do corpo e da mente, em um estado emocional e físico que toda a força reunida dos seus incríveis músculos não conseguiria alterar. A não ser que lhe chegasse uma simples mensagem, como essas que contêm um poder ilimitado hoje. E a mensagem chegou-lhe mesmo como um grande bang, com tamanho impacto que fazia lembrar aquele que foi o big, o que veio pôr fim ao caos no universo. Também Francisco estava mergulhado no caos e uma mensagem, simples como tantas outras, estourou-lhe nas mãos, nos olhos, na mente, e na alma com tremenda brutalidade, porque trazia um adjectivo, fraquinho. Franscisco renascerá do buraco negro em que se encontra. E, mais tarde, um dia quando for velho e estiver a fumar um cigarro de enrolar num alpendre virado para uma planície alentejana, na casa de um velho amigo, poderá agradecer a esta singelíssima mensagem. Em tudo semelhante a outras recebidas, por outras pessoas no mesmo instante, escrita no estilo displicente e tão comum neste tempo, sem letras maiúsculas, sem acentos, a letra q e seu respectivo u trocados por um k, sem pontuação, como que a pontuar a agressividade da intenção, o jeito feroz usado nas comunicações deste tempo. Era só uma mensagem insignificante, mais pequena que uma molécula, mas atirada como uma chapada intencional, com a força de uma estrela em explosão. Uma onda de sentimentos indefinidos e violentos esmagou-lhe o peito, a garganta secou instantaneamente. Fraco, a pergunta saiu-lhe dos lábios, feita para si mesmo, cuspida, com um espasmo epiléptico, um curto circuito da traqueia, tão inaudível quanto um fio de corrente que salta de um pólo para o outro logo ao lado. Esmagou o telemóvel no interior da mão pouco delicada, uma mão habituada a pegar em halteres de quarenta quilos, e lançou-o ao acaso para dentro do saco de desporto. Sem pensar mais, atirou toda a tralha lá para dentro, puxou os fechos de correr e, lá se vai o estilo literário para o espaço outra vez, com a delicadeza de um rinoceronte, projectou-o para o interior do cacifo, a seguir bateu com a porta e trancou-a com o cadeado. Faltavam alguns preparativos para aula e, além disso, poucos minutos faltavam para a hora de início. Sentou-se, e começou a calçar as sapatilhas de encaixe, agora tinha em todo o corpo uma fúria, a mesma que tomara posse da mão uns instantes atrás, quando despachou o telemóvel para outro o mundo. Sentado, dobrado sobre si mesmo, fechou as presilhas dos sapatos, depois endireitou o tronco, ajeitou a tichãrte elástica e parou um segundo para respirar fundo. A fúria deu lugar à determinação. Levantou-se rapidamente, agarrou no conjunto de microfone, no iPod, na toalha, na garrafa cheia da bebida isotónica, para repor sais, minerais e vitaminas, que se irão perder com os litros de transpiração, provocada pelo esforço, na aula arrasadora que vai dar dentro de instantes.
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Franscisco Carvalho_Parte II
Baixou o braço e fixou um ponto, que ficava mais ou
menos a quarenta centímetros do chão, a meia distância entre o
banco de apoio e o banco onde estava prostrado, olhava para ali,
onde vive o nada. Continuava na mesma posição e segurava as
meias-meias na mão direita, o braço desmaiado sobre o assento,
estava numa posição que, visto a uma certa distância, parecia uma
toalha suja atirada para cima do banco. Estava encostado para trás,
as pernas estendidas para a frente, num abandono displicente, que
era a cor que tingia o ar à volta dele. Tinha os pés nus, e as
sapatilhas de encaixe estavam logo ali ao lado, aguardando a sua
vez de entrarem ao serviço. Um aluno do ginásio passou, ensopado
no suor do treino intenso, trazia a atitude confiante de quem se sente
bem com as dores que sente no corpo, passou e cumprimentou o
personal trainer. Francisco, por sua vez, fez um mini aceno com a
cabeça, que podia significar qualquer coisa, até podia ser uma
resposta, mas também podia ser um mini espasmo dos músculos do
pescoço. Esboçou o princípio de uma intenção de gesto, parecia que
ia calçar as sapatilhas, mas, não, mais uma vez deixou afundar no
banco os oitenta quilos de músculos. Estava com o ânimo de um
girino preso num charco em dia de calor bestial, daquele que parte
pedras e derrete vontades.
O telefone inteligente da Samsung deu alerta de mensagem, e a
chegada daquele sinal sonoro arrancou-o da apatia, mais ou menos
como um ortodôncio faz a um molar com uma cárie e que já passou
do prazo. Instantaneamente, da cabeça aos pés, os músculos
retesaram todos, o que no caso dele equivalia a uma enorme
quantidade de energia, posto em números, daria uma bela
demonstração da fórmula do Einstein, e, com essa massa e com
essa aceleração todas, assim disparou do banco, demonstrando uma
rapidez e uma agilidade desconcertantes, que fizeram saltar de susto
um jovem praticante do fitness, que por ali passava desprevenido,
vindo do duche quente, com a toalha em volta da cintura, apenas
segura pela mão, e que, por isso mesmo, quase lhe caia. Alguém tão
maciço e tão inerte não era suposto mexer-se tão rápido, e, sejamos
justos para com o jovem, a visão daquela massa em movimento
explosivo, sem um aviso prévio, podia ser assustadora. Desta
maneira acordou Francisco para a vida. Mas, o sobressalto dele não
se ficou a dever a nenhuma ansiedade, como quem aguarda uma
mensagem desejada, coisa que podia muito bem ter acontecido, uma
vez que, nos dias de hoje, esperar ansiosamente a chegada de uma
Short Message Service, ou de um Vibe, ou um chat no Messenger na
aplicação do Facebook para o telemóvel, ou na Skype, é algo muito
comum. E se dúvidas houver bastará ir para rua contar cabeças
dobradas, naquele jeito anguloso e doloroso de levar a cabeça
espetada para baixo, com os olhos especados no telemóvel, este
seguro na mão, cujo braço faz um ângulo de noventa graus, e, assim,
a cabeça e o braço parecem duas tenazes, que se fecham uma na
direcção da outra, mordem o ar, para desta forma aproximarem mais
a mensagem do seu destinatário, e vencer a distância entre o
aparelho e a mente, aquela distância que a tecnologia ainda não
consegue superar, mas isto não será por muito mais tempo, não hão
de passar muitos anos e estamos a receber mensagens directamente
no cérebro, ou atender chamadas clicando no lóbulo da orelha direita,
a esquerda servirá para desligar a chamada. Mas, por enquanto,
temos os aparelhos espertos, ou smartphones, que são pequenina,
cada vez mais pequenas e finas, ou espalmadas e grandes na sua
área de ecrã, que temos de trazer debaixo do braço, na mão, no
bolso das calças, ou do casaco, na mochila, sobretudo se se tratar de
um objecto da categoria de um iPad, um termo que neste contexto
assume duplo sentido, e, neste preciso minuto, em que esses olhos
seus passam os por estas linhas minhas, neste preciso instante,
novecentos e setenta e quatro mil trezentos e doze utilizadores de
telemóveis passam os dedos pelos ecrãs tácteis dos seus telemóveis
espertos, pergunto-me se haverá também telemóveis de esperteza
saloia, fica a pergunta, enquanto os servidores de telecomunicações,
enviam o mesmo número, atrás referido, de mensagens. Isto, dizem-
nos as estatísticas, quaisquer umas, escolha as suas, e serão tão
válidas como outras quaisquer, porque a estatística é, como o
jornalismo, uma questão de perspectiva, um ângulo que se escolhe e
partir do qual se efectua uma pesquisa e um estudo, e daí se retira
um resultado, mas se outro ângulo for escolhido, outro resultado se
obterá, é facto insofismável, quem sabe de estatística sabe do que
falo. Portanto, de todas estas pessoas que vão receber mensagens
no próximo minuto, é razoável dizer que muitas delas aguardam a
respectiva mensagem que vão receber, e que algumas, ou até
mesmo muitas, provavelmente, serão esperadas com um certo
aperto no coração, ou, no mínimo, um elevado grau de expectativa.
Nem é demais dizer, o mundo inteiro dedica-se à actividade de textar,
vocábulo inexistente, mas também a própria da acção, ou actividade,
o era até há poucos anos, e agora é a coisa mais comum, praticada
freneticamente, portanto quem sabe, entrará no uso corrente da
expressão oral este novo vocábulo, exprimindo esta nova acção tão
muito praticada, ou então um outro, que já se ouve por aí, o
mensajar. E quantos às pessoas que não aguardam a chegada de
nenhuma mensagem, essas não estão a textar, nem é provável que o
venham a fazer nos próximos instantes, embora não se possa dizer
com absoluta certeza, mas com mais certeza podemos afirmar que,
se não está a textar, ou mensajar, gostaria de vir a fazê-lo com
alguém nos próximos minutos. Podemos até aventar que, quem não
está a textar não tem com quem trocar mensagens nesse instante, e
deve estar profundamente infeliz, ou no mínimo, levemente deseja ter
alguém com quem textar, com ardor crescente quanto mais tempo
passar, e, se calhar até está neste momento a rever mentalmente a
lista de contactos do telemóvel, do Facebook, do Skype, ou do Vibe,
ou qualquer outro desses facilitadores, para escolher prontamente a
próxima vítima do seu textar. Porém, como dizíamos, não foi por
causa de nada disto que Francisco saltou do banco. No fígado dele
não havia ânsias de saber quem lhe escrevera. Também não saltou
do banco movido por uma vontade incontrolável de conhecer o
conteúdo da mensagem, nem sequer por alguma carência afectiva de
circunstância. Embora alguma curiosidade ele tivesse, não seria
suficientemente forte para o arrancar do anhanço, que o encharcava
tanto quanto a transpiração irá ensopar a sua tichãrte elástica, dali a
uns minutos, na aula que está prestes a começar. Não. O alerta, que
disparou no íntimo do Francisco, foi algo muito mais profundo,
despertou nele um instinto, algo que, não sendo nem consciente nem
mecânico, dificilmente, ele conseguiria pôr em palavras, se lhe
pedíssemos. Como não podemos pedir, vamos imaginar, uma raiva
de se ver prostrado daquela maneira, contrário a tudo o que ele
sempre foi, simétrico a tudo o que ele aspira a ser, mas que no
presente, com um magnetismo invencível, se cola nele como uma
peçonha e lhe transforma a atitude, e por o empecer assim tanto, e
de uma forma que lhe é tão alheia, inunda-o de um terror.
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
Francisco Carvalho_Parte I
Franscisco Afonso Soares Pereira de Carvalho deixou-se
afundar no banco do balneário dos homens. À frente dele, em cima
do outro banco, o de apoio, que atravessa ao comprido aquela
secção do balneário, dividindo-a ao meio, está um grande saco de
desporto, completamente aberto, o qual, com t-shirts de mangas e
sem mangas, as de algodão, boas e as que já levam vários anos de
uso, as de licra e as antitranspirantes de cores vivas, com as
sweatshirts pretas, brancas, azuis, verdes e cor-de-laranja-enérgico,
incluíndo as que fazem parte do equipamento obrigatório dos
funcionários do ginásio, as calças de treino da ADIDAS, da Nike e as
camufladas da Susana Gateira, de que ele gostava particularmente,
depois, havia também calções, os de correr, os de bicicleta com
reforço de latex nos glúteos e virilhas, os de levantar ferro, feitos de
algodão e com as costuras descosidas, coçados e esboroados por
vinte anos a levantar ferro, as meias e as cuecas várias, e estavam à
vista pelos menos dois pares de ténis, hoje eram uns Nike com três
tons de cinzento, e três texturas de materiais diferentes, cinzentos
com rasgos de verde-lima-devagarinho e os Rebook vermelho-
rapidíssimo com a sola branca em “s” para maior aderência, mais uns
chinelos de enfiar da conhecida marca brasileira, mais artigos de
higiene pessoal cuja enumeração triplicaria o tamanho desta já longa
lista, com tudo isto ocupava ele muito espaço no referido banco de
apoio, para não dizer quase todo, e deixava pouco lugar para as
coisas dos outros, coisa que irritava levemente alguns dos sócios do
ginásio, embora também houvesse uns mais complacentes, que até
faziam o mesmo, assenhorando-se de cada milímetro do banco e do
chão à sua volta, como se tudo lhes pertencesse, ou, não sabendo
eles que não são proprietários exclusivos do ar que os rodeia, agem
como se não existisse mais ninguém a não ser eles próprios, com
uma atitude autista, deficientemente disfarçada, mal disfarçada
portanto, fingindo não reparar no mundo à sua volta, tentando fazer
acreditar que, genuinamente, não repararam nos outros que ali estão.
Por seu lado, Francisco ocupava muito espaço porque precisava.
Não era o tipo de pessoa que traz uma atitude auto-centrada, nem de
superioridade sobre os demais, mas trazia sempre a casa às costas,
e essa é que era a razão de ocupar tanto espaço. O desempenha
das funções no ginásio exigia andar com uma infinita quantidade de
objectos pessoais e isso, achava ele, dava-lhe direitos. Francisco, ele
próprio, ocupava muito espaço onde quer que estivesse, devido às
dimensões do corpo colossal. Além disso, era um tipo que sabia
importar-se com os outros, quando, por alguma razão, pessoal,
sentimental, ou por pura simpatia, queria importar-se com alguém.
Neste momento, em que viemos encontrá-lo, tem tudo espalhado,
mas vai ser por pouco tempo. Já tem vestida a t-shirt elástica, com
rasgos de azul, de formas gráficas, que acentuam a tonicidade do
tronco e braços, e exalam força e dinamismo, já tem os calções
também do mesmo material que se cola ao corpo e permite andar nu
sem verdadeiramente estar nu, estes sendo de um discreto preto,
rasgado com os mesmo traços azuis e com as letras rpm abertas a
branco. Olhou para o relógio, faltavam doze minutos para começar a
aula, e reparou na pulsação, cinquenta e três batimentos por minuto.
Demorou-se uns segundos, de braço esquerdo levantado e flectido,
com o punho próximo da cara, e os olhos fixos no mostrador. Quem o
visse assim, a admirar o número de batimentos do seu próprio
coração, diria que cinquenta e três era um enorme motivo de orgulho.
Na verdade, era vaidade. Tinha um amor pela sua capacidade
cardíaca, conquistada com sangue suor e lágrimas, a levantar muito
ferro, a passar horas intermináveis e dolorosas em cima de bicicletas,
que até lhe custaram um testículo, sim, aquela pulsação era
venerável, cinquenta e três batimentos por minuto, e nem sequer era
em repouso absoluto, porque, nesse caso, o numeral era ainda mais
impressionante, uns inacreditáveis trinta e seis batimentos ao
acordar, o coração batia-lhe tão forte quando estava perto do
despertar que, caso a sua parceira, unida de facto, estivesse deitada
a seu lado, sentiria a cama tremer, e se isto parece um exagero, já
não o é se dissermos que, quando estava assim deitado, a cada
batida do potente órgão, ele sentia o corpo vibrar.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Joana Janes_Parte III
O inglês conduz Joana por ruas e vielas de Londres, como o maestro conduz a orquestra. Gesticula de modo muito enfático e distraidamente, as mãos com aqueles movimentos desarticulados do homem que dirige a sinfonia, e abana muito a cabeça enquanto fala animadamente. Ela ri. Os gestos parecem exagerados mas de alguma forma encontram sentido em Alice, alguma espécie de ressonância acontece nela, como a caixa do piano faz à harpa que recebeu no seu interior, Joana vai reagindo, dizendo que sim, que não, que interessante, que chato, rindo sinceramente do fundo da alma. Agora estão na rua Old Compton e seguem para norte até à praça Soho, passam por entre as árvores da miniatura de alameda, mas o verde aqui parece demasiado pouco, as pessoas demasiadas muitas, estranhas formas de dizer, a segunda tão errada, mas tão engraçada. Naquela praça do Soho sentem-se apertados, eles precisam de mais magia, nenhum dos dois o diz, mas, entre silêncios e olhares desviados, lá se vão entendendo, então o inglês, no centro da pequena praça, vira à esquerda, aponta à rua Carlisle, percorrem-na tranquilamente, não há pressas, voltam à direita na rua Dean, novamente para norte, até saírem do Soho, deixam para trás as lojinhas moderninhas e os bares, e agora descem a rua Oxford em direcção ao parque Hyde. Não andam, flutuam como notas de um divertimento de Scarlatti, o tal divertimento. Chegados ao parque Hyde é bem possível que o inglês polido leve Alice ao memorial da princesa, que é um bom lugar para levar princesas. Na sua polidez, o inglês vai apresentando a cidade à estranha da cabeça partida, levou três pontinhos, e joelho esfolado, passam por mais lojas de moda masculina, feminina, unisexo, um Starbucks, um bazar, uns minutos mais tarde cruzam-se com a Nike Town na esquina com a rua Regent, mas Joana não tem vontade de ir ver ténis nem moda deportiva. Estranha mulher esta, pensa o inglês, tem um ar de miúda, que é menos uma cara infantil e mais uma alegria impoluta de menina, porém, tem a segurança da mulher feita, não lhe dá ilusões nenhumas, ele sabe que apesar de estar a fazer de maestro, não é ele quem dirige o destino dos dois, isto ele lê-lhe nos olhos castanhos claros, estranha mulher que parece estar a borrifar-se para coisas de moda. Lentamente, ao longo destas três horas, o inglês, sem se dar conta, tem vindo a pegar e juntar pequeninas peças de puzzle que constroem a Joana Janes que ele vê, de quem ele ainda nem sabe um nome, nem um sequer um falso, talvez seja por isso que dizemos não vemos os outros verdadeiramente como eles são, vemos como desejamos que sejam. Aproximam-se das árvores de um dos mais agradáveis parques do mundo. No parque Hyde, ou Hyde Park se preferes, entraram pelo vértice oposto aos arcos da Rainha Isabel, também conhecida por A Grande Entrada, porque ficava no seguimento da rua Oxford, de onde eles vinham, e os arcos estão do outro lado, não muito longe, Não tem importância, disse Joana, em resposta à súbita aflição do inglês, por falharem a grandiosa entrada. Seguiram pelo meio das bétulas, dos carvalhos e das aveleiras, dos plátanos e das massivas faias, seguiram pelo labirinto desafogado de troncos que, a cada passo, abre espaços para a alma. Pode ter sido o inglês, que, a mais das feições bonitas, em cada gesto inglesmente polido trazia um charme irreverente, com o qual se esforçava por a impressionar, ou pode ter sido a música do silêncio do parque Hyde, cujas árvores eram donas de uma verticalidade corpulenta mas que parecia não pesar, como se a gravidade não actuasse nelas e simplesmente estivessem suspensas sobre aquele ondulado mar de verde, em ligeiro declive, clareira imensa que, como nuvens carregadas que se abrem rapidamente deixando o céu verter sobre nós sol e calor, instila tranquilidade, à qual as fileiras cerradas de árvores somam um silêncio balsâmico, substituindo os sons urbanos de Londres por um bem-estar delicioso, assim fazendo daquele pedaço de terra um pequeno paraíso, fosse por isto, ou fosse por aquilo, ou por concomitância de ambos, Joana Janes apaixonou-se.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
Joana Janes_Parte II
A segunda consequência, de Joana Janes ter olhado para a esquerda quando devia mirar à direita, foi ter dito ao inglês que se chamava Alice. Como já se disse, não foi premeditado. Não foi uma mentira intencional, não houve maldade, também não houve medo, nem pudor de revelar o seu verdadeiro nome a um estranho. Quando aconteceu sair-lhe o nome Alice da boca, foi um espasmo involuntário que lhe deu na língua. Ou terá sido uma afasia selectiva, pergunta que fica no ar, que talvez algum neurologista pudesse explicar, depois de muitas perguntas cognitivas e outras de um carácter inquiridor mais palpável sobre sensações específicas, Menina Joana sente um formigueiro aqui, e ali, e acolá, e se eu lhe apertar este dedo sente, mas sente com que intensidade, diga de zero a dez quanto, e se eu puser este diapasão a vibrar aqui na pequena depressão entre as clavículas, na base do pescoço, sente-o, quanto e aqui no cotovelo e neste tornozelo também sente vibrar, mais ou menos, e a seguir, depois deste sortido de perguntas, viriam as marteladinhas, com o seu martelinho provocador de reflexos condicionados, em ambos os joelhos, nos dois tornozelos e também os cotovelos vão apanhar as marteladinhas que fazem saltar desarticuladamente os membros, e depois destes exames, incluíndo uma ressonância magnética feita num hospital particular e paga com seguro de saúde privado pago pela mãezinha dela, entre outros exames, que aqui não descrevemos para não provocar bocejos compulsivos em quem nos dá atenção, depois disto tudo concluirá o neurologista que Joana Janes às vezes chama-se de outras maneiras, isto é, apresenta outros nomes próprios e outros apelidos, porque sofre inexplicavelmente de atáxia na broca e tem pequeníssimos ataques de epilépsia, que lhe fritam a memória, quando, e apenas quando vai dizer o seu nome próprio a um estranho, é caso para dizer, o cérebro escreve direito por linhas tortas. Haveria o neurologista de correr o mundo com este caso único e ficar famoso. Entretanto, correm as horas desde o acidente, umas três já passaram. Alice e o inglês já foram ao hospital, continuam juntos, estão a tomar um chá, numa rua do Soho, ainda o inglês não se apresentou formalmente, nem caíu na esparrela do nome dela. Alice, alías, Joana, permite a si própria deixar-se entreter pelo inglês sensual, é um divertimento, um divertimento que pode muito bem estar a ser escrito não por Deus mas por um outro deus chamado Domenico Scarlatti. Estes dois juntos assim, a caminhar pela rua, parecem um divertimento do compositor italiano, transcrito, quem sabe pelo intérprete espanhol Segovia, para duas guitarras, está esta barafunda a passar-se agora num passado presente curvo que permite este bizarro encontro de tanta gente, que nunca se poderia encontrar em vida, de tantas nacionalidades e tempos diferentes, um italiano, um espanhol, um inglês e uma portuguesa juntos porque uma Alice que se chama Joana olhou indevidamente para a direita. Real ou irreal, aquilo que podemos ver se olharmos agora é que estão juntos Alice e o inglês, duas notas, semibreves ou semicolcheias ainda não sabemos, mas unidas, depois de terem sido libertadas da massa de caos infinita onde vive tudo o que ainda não é, tornados reais, subtraídos da corda que é o universo, dedilhadas por uma inteligência superior, com uma elegância sublime, sucedem-se em arco, notas que flutuam no ar, numa sequência de alegria tão grandiloquente como nunca se ouviu, riem, falam, trocam olhares, preenchem o ar com a sua música e, nele, ficam a ondular numa harmonia perfeita como só dois acordes são capazes. Está visto que estes dois estão a dois passos de ficarem perdidos de paixão um pelo outro e, apesar de ter sido acidentalmente, como se viu, ainda agora acabaram de travar conhecimento. Mas isso pouco importa nas coisas do amor.
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
Joana Janes_Parte I
Joana Janes nunca dizia o seu verdadeiro nome. Inventava. Por exemplo, certa vez, a um inglês, com quem manteve uma relação de três anos, um homem de quem gostava muito, na altura até dizia que o amava e que nunca ninguém o amara, nem haveria de amar, tão completamente quanto ela, disse-lhe que se chamava Alice. Não foi uma mentira premeditada. Entre o terem dito a primeira palavra um ao outro, um Olá estranho, e um Olá distraída, no primeiro minuto em que pela primeira vez se viram, e o momento em que ele lhe pediu o nome, Joana Janes não pensou uma única vez que não iria dizer o seu verdadeiro nome ao inglês charmoso e sedutor que a viera socorrer depois de um táxi a atropelar. A culpa foi dos ingleses e a mania de fazerem tudo às avessas dos outros povos, como conduzirem no sentido contrário ao normal, ou então a culpa seria dos adultos que a ensinaram a olhar primeiro para esquerda antes de atravessar uma estrada, e nunca lhe explicaram que um dia que fosse a Londres não se podia esquecer de olhar primeiro para a direita, Pára já, Joana, já te disse para olhares antes de atravessares a rua, disseram-lhe mil vezes os mil pais de acolhimento que Joana Janes teve, mas nunca disseram, Pára já, Joana Janes, e olha para esquerda para ver se vêm carros e, um dia que vás a Londres não te esqueças de olhar primeiro para a direita. São assim estas pequenas coisas que mais tarde vêm a determinar o nosso futuro de maneiras que nem sonhamos. Claro que os mesmos adultos, que a ensinaram a olhar primeiro para esquerda, esses mesmos também lhe ensinaram que logo de seguida, ainda antes de atravessar a estrada, deveria olhar para a direita e depois, novamente, para a esquerda, e, só depois, é que se atravessa a rua, claro, tivesse Joana Janes feito como lhe recomendavam as milhares de recomendações dos mil pais e teria visto o táxi, mesmo olhando primeiro para esquerda, como olhou. Porém, Joana Janes nunca fazia nada do que lhe tinham ensinado, porque, bem, porque simplesmente não fazia. E, assim, vinha a andar pelo passeio numa passada de quem desfila numa passerela, e, tal como acontece num desfile de moda, todas as cabeças, de homens cobiçosos e mulheres, invejosas umas, outras também elas cobiçosas, voltavam-se na sua direcção e, ao aproximar-se da berma da estrada, olhou para esquerda, perdida no seu mundo de príncipes e princesas, de olhos abertos mas sem ver, viu a estrada vazia, pois claro, os automóveis vinham era da direita, e, perdida nesse mundo mais belo que o mundo real, continuou a caminhar com as suas passadas firmes e magnéticas, sem um ligeiro abrandamento sequer, sem ligar ao facto da massa brutal de gente no seu vai e vem diário pela cidade se encontrar parada à espera de algo, era o sinal verde para os peões, mas isso Joana Janes também não viu, furou essa massa, atravessou-se na estrada como se nao fosse mais do que um prolongamento do passeio. Um táxi, que vinha no sentido que os carros devem vir, bateu-lhe em cheio. Um joelho esfolado, uma contusão na cabeça, aparentemente sem grande importância, e um inglês polido, como um verdadeiro inglês deve ser, que insistiu acompanhá-la às urgências do hospital, foram as primeiras consequências de Joana Janes andar na Lua. As segundas, terceiras e quartas consequências, vamos a saber já de seguida.
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