terça-feira, 1 de abril de 2014

Nuno Salazar

Hoje vou falar-te do Nuno. O Nuno Salazar é supervisor num departamento. Ele é responsável por gerir a criação dos projectos que a empresa apresenta a um determinado grupo de clientes da empresa. O Nuno tem um chefe. Esse chefe, além de gerir os vários supervisores e de cumprir com as várias responsabilidades que o seu cargo exige, é também um dos três sócios da empresa. Juntamente com um dos sócios, o chefe do Nuno detém 49% da empresa, divididos em partes igual. Os restantes 51%, como é habitual nos modelos empresariais de hoje, pertencem a um grupo multinacional. Nesta empresa, o Nuno é muito consciente das suas responsabilidades, e, para correctamente desempenhar o seu papel de supervisor, o Nuno, todos os dias por volta das 8 horas da manhã, quando chega ao escritório, antes de entrar, dirige-se primeiro às traseiras do edifício e vomita o pequeno-almoço. Às vezes vomita o jantar da noite anterior também. Isto acontece, como se disse, todas as manhas, por volta das oito. Ajuda-o a acalmar, mas só no momento de entrar no escritório. O que o Nuno também faz todos os dias, mais do que uma vez, é tomar calmantes. Tem preferência pelos Lexotans, com whisky se for à noite, se for de dia toma simples com água, se a tiver à mão, senão engole-os em seco. Chega a tomar aos cinco e seis por dia. Como é insuficiente para acalmar os nervos, o Nuno, com menos frequência, mas ainda assim muito próximo da repetição diária, faz umas linhas de cocaína, normalmente, ao fim da manhã, ou a seguir ao almoço, e também ao fim do dia, se o trabalho se prolonga pela noite, o que acontece com frequência, e, também, manda uma snifadela rápida, sempre que tem alguma reunião importante com chefes ou com clientes. O Nuno começou a cheirar cocaína na sua terceira semana de trabalho nesta empresa, o que aconteceu há 5 anos, faz hoje aniversário. Antes disso, o nariz do Nuno nunca tinha aterrado na neve. Nessa altura, ele ainda não era supervisor, inicialmente foi contratado para desenvolver projectos. Mas demonstrou ter o talento que era preciso para subir naquela empresa. Nessa terceira semana de trabalho, as coisas não estavam a correr bem ao Nuno. Tinha recebido o seu terceiro projecto, tinha-o nas mãos há vinte e quatro horas, durante as quais não abandonara nem por um minuto o edifício do escritório, e ainda assim não conseguira ter nenhuma ideia de como começar a desenvolvê-lo. Os dois projectos anteriores não chegara a finalizá-los. Foram-lhe retirados e atribuídos a outro projectista, há mais tempo na empresa. A decisão de retirar o projecto das mãos do Nuno, ou, visto de outra perspectiva, a decisão de retirar o Nuno do desenvolvimento de cada uma dos projectos anteriores, coubera ao respectivo supervisor responsável pelo projecto em causa, que não fora o mesmo em ambos os casos.
O Nuno tinha sido caçado para ser colaborador naquela empresa. Caçado é um termo muito actual, e descreve adequadamente o processo de selecção e aquisição de pessoas que ocorre em muitas empresas hoje, quando desejam adquirir colaboradores. Então, os supervisores do Nuno andaram a namorá-lo durante cerca de um ano e meio, quando ele ainda estava numa empresa da concorrência. O Nuno tinha então cerca de seis anos de experiência nesta area profissional. Era um jovem talentoso, cheio de resultados positivos que granjearam fama e prémios. Tal qual estrelinhas bruxuleantes no universo escuro, os sucessos do Nuno captaram a atenção desta empresa, a número um do seu mercado, a que era tida como sendo a melhor. Foram atrás dele, e caçaram-no. O Nuno, jovem ambicioso que era, deixou-se caçar de boa vontade pela número um.
No entanto, ao fim de três semanas, dois projectos falhados, e um terceiro com boas perspectivas de alcançar igualmente um fracasso total, o Nuno sentia que as coisas não estavam a correr exactamente como tinha esperado. Sentia-se sem opções, tudo o que tentava não resultava. A única resposta que obtia dos seus superiores representava para ele pouco mais do que um enigma "É o nível de exigência aqui que é muito elevado". O Nuno esforçava-se ainda mais, trabalhava mais horas, usava a imaginação para criar novas respostas que satisfizessem os altos critérios, fazia o que sabia, e nada do que sabia servia. Evidentemente, a solução passava por fazer as coisas de modo diferente. Foi assim que à uma da manhã decidiu aceitar o convite do colega e encher a cabeça da branquinha. Trabalhou toda a noite. Quando o supervisor chegou de manhã deitou fora tudo o que ele fez e obrigou-o a recomeçar do zero. Mas o Nuno queria muito que aquela colaboração resultasse. Por isso, insistiu, insistiu mais, voltou a insistir mais ainda, deixou-se humilhar por todos os supervisores e pelo chefe, repetidas vezes. E, espantosamente, foi conquistando assim o seu lugar na empresa número um. Ao fim de dois anos e meio o chefe promoveu-o a supervisor. Era tudo o que o Nuno mais queria. Com esta promoção veio a psoríase.

- Psoríase? - perguntou ele entre gargalhadas - mas apareceu logo assim? - acrescentou ele com curiosidade.
- Não apareceu imediatamente, veio com o tempo, ao fim de umas semanas começou a cair-lhe o cabelo... - respondi-lhe eu.
- E depois? Ficou com aquelas placas horrorosas?
- Sim ficou, mas sobre isso contar-te-ei outro dia, pareces cansado.
Ele assentiu, com uma expressão contrafeita, não estava habituado a que não lhe concedessem as vontades no momento em que as manifestava.
- Está bem, podes continuar a falar-me do Nuno Salazar mais tarde.
E assim recolhemos os dois, ele afastou-se na direcção do Lamborghini Veneno, acompanhado da motorista Kunoichi, a belíssima e fiel guarda-costas sem nome, e eu caminhei pela calçada abaixo nas minhas sandálias de pescador.

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