sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Francisco Carvalho_Parte III

Levantou-se, numa explosão, como já dissemos, como quem foge de algo terrível, perna direita à frente, com a esquerda fez uma longa e rápida extensão, e já estava em cima do saco, na sequência do movimento esticou o braço direito, enfiando a mão na bolsa exterior, tirou o telemóvel, olhou para ele, a sua atenção ficou-se instantaneamente no quadrado verde, onde se lia um nome, Margarida, deslizou pelo ecrã táctil o indicador da mão direita, e leu a mensagem, és um fraquinho. A mensagem bateu-lhe forte. É uma maneira forte de descrever o sentimento de Francisco, até um pouco rude e tosca, que deve pouco ao estilo literário, mas vamos pedir que se aceite a massa bruta, desajeitada e informe que é aquela oração, não queremos fazer mais do que mimetizar em palavras reais, sinónimas de verdade, uma verdade, o estado confuso de Franscisco. No seu íntimo, os sentimentos e a razão, as múltiplas razões que a razão desconhece, movem-se desordenamente e com velocidades vairáveis, e somadas aos ossos, às fibras, à pele, ao suco vermelho da vida, antes do estrondo da mensagem, todos estes elementos formam uma massa rude e informe. Em vez do aforismo, procurámos o realismo, para reconstruir um retrato mais fiel e menos ficcionado da verdade, que a eloquência literária poderia distorcer. Estamos a falar de uma mensagem bruta, que teve a capacidade de fazer explodir o seu destinatário, libertá-lo das forças magnéticas que hoje o atraem para o grau zero do movimento, uma inércia, no sentido da física, uma massa informe, cujo estado Francisco não conseguia alterar sozinho, um estado latente de repouso, letargia, morte em vida, parado do corpo e da mente, em um estado emocional e físico que toda a força reunida dos seus incríveis músculos não conseguiria alterar. A não ser que lhe chegasse uma simples mensagem, como essas que contêm um poder ilimitado hoje. E a mensagem chegou-lhe mesmo como um grande bang, com tamanho impacto que fazia lembrar aquele que foi o big, o que veio pôr fim ao caos no universo. Também Francisco estava mergulhado no caos e uma mensagem, simples como tantas outras, estourou-lhe nas mãos, nos olhos, na mente, e na alma com tremenda brutalidade, porque trazia um adjectivo, fraquinho. Franscisco renascerá do buraco negro em que se encontra. E, mais tarde, um dia quando for velho e estiver a fumar um cigarro de enrolar num alpendre virado para uma planície alentejana, na casa de um velho amigo, poderá agradecer a esta singelíssima mensagem. Em tudo semelhante a outras recebidas, por outras pessoas no mesmo instante, escrita no estilo displicente e tão comum neste tempo, sem letras maiúsculas, sem acentos, a letra q e seu respectivo u trocados por um k, sem pontuação, como que a pontuar a agressividade da intenção, o jeito feroz usado nas comunicações deste tempo. Era só uma mensagem insignificante, mais pequena que uma molécula, mas atirada como uma chapada intencional, com a força de uma estrela em explosão. Uma onda de sentimentos indefinidos e violentos esmagou-lhe o peito, a garganta secou instantaneamente. Fraco, a pergunta saiu-lhe dos lábios, feita para si mesmo, cuspida, com um espasmo epiléptico, um curto circuito da traqueia, tão inaudível quanto um fio de corrente que salta de um pólo para o outro logo ao lado. Esmagou o telemóvel no interior da mão pouco delicada, uma mão habituada a pegar em halteres de quarenta quilos, e lançou-o ao acaso para dentro do saco de desporto. Sem pensar mais, atirou toda a tralha lá para dentro, puxou os fechos de correr e, lá se vai o estilo literário para o espaço outra vez, com a delicadeza de um rinoceronte, projectou-o para o interior do cacifo, a seguir bateu com a porta e trancou-a com o cadeado. Faltavam alguns preparativos para aula e, além disso, poucos minutos faltavam para a hora de início. Sentou-se, e começou a calçar as sapatilhas de encaixe, agora tinha em todo o corpo uma fúria, a mesma que tomara posse da mão uns instantes atrás, quando despachou o telemóvel para outro o mundo. Sentado, dobrado sobre si mesmo, fechou as presilhas dos sapatos, depois endireitou o tronco, ajeitou a tichãrte elástica e parou um segundo para respirar fundo. A fúria deu lugar à determinação. Levantou-se rapidamente, agarrou no conjunto de microfone, no iPod, na toalha, na garrafa cheia da bebida isotónica, para repor sais, minerais e vitaminas, que se irão perder com os litros de transpiração, provocada pelo esforço, na aula arrasadora que vai dar dentro de instantes.

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