terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Franscisco Carvalho_Parte II

Baixou o braço e fixou um ponto, que ficava mais ou menos a quarenta centímetros do chão, a meia distância entre o banco de apoio e o banco onde estava prostrado, olhava para ali, onde vive o nada. Continuava na mesma posição e segurava as meias-meias na mão direita, o braço desmaiado sobre o assento, estava numa posição que, visto a uma certa distância, parecia uma toalha suja atirada para cima do banco. Estava encostado para trás, as pernas estendidas para a frente, num abandono displicente, que era a cor que tingia o ar à volta dele. Tinha os pés nus, e as sapatilhas de encaixe estavam logo ali ao lado, aguardando a sua vez de entrarem ao serviço. Um aluno do ginásio passou, ensopado no suor do treino intenso, trazia a atitude confiante de quem se sente bem com as dores que sente no corpo, passou e cumprimentou o personal trainer. Francisco, por sua vez, fez um mini aceno com a cabeça, que podia significar qualquer coisa, até podia ser uma resposta, mas também podia ser um mini espasmo dos músculos do pescoço. Esboçou o princípio de uma intenção de gesto, parecia que ia calçar as sapatilhas, mas, não, mais uma vez deixou afundar no banco os oitenta quilos de músculos. Estava com o ânimo de um girino preso num charco em dia de calor bestial, daquele que parte pedras e derrete vontades. O telefone inteligente da Samsung deu alerta de mensagem, e a chegada daquele sinal sonoro arrancou-o da apatia, mais ou menos como um ortodôncio faz a um molar com uma cárie e que já passou do prazo. Instantaneamente, da cabeça aos pés, os músculos retesaram todos, o que no caso dele equivalia a uma enorme quantidade de energia, posto em números, daria uma bela demonstração da fórmula do Einstein, e, com essa massa e com essa aceleração todas, assim disparou do banco, demonstrando uma rapidez e uma agilidade desconcertantes, que fizeram saltar de susto um jovem praticante do fitness, que por ali passava desprevenido, vindo do duche quente, com a toalha em volta da cintura, apenas segura pela mão, e que, por isso mesmo, quase lhe caia. Alguém tão maciço e tão inerte não era suposto mexer-se tão rápido, e, sejamos justos para com o jovem, a visão daquela massa em movimento explosivo, sem um aviso prévio, podia ser assustadora. Desta maneira acordou Francisco para a vida. Mas, o sobressalto dele não se ficou a dever a nenhuma ansiedade, como quem aguarda uma mensagem desejada, coisa que podia muito bem ter acontecido, uma vez que, nos dias de hoje, esperar ansiosamente a chegada de uma Short Message Service, ou de um Vibe, ou um chat no Messenger na aplicação do Facebook para o telemóvel, ou na Skype, é algo muito comum. E se dúvidas houver bastará ir para rua contar cabeças dobradas, naquele jeito anguloso e doloroso de levar a cabeça espetada para baixo, com os olhos especados no telemóvel, este seguro na mão, cujo braço faz um ângulo de noventa graus, e, assim, a cabeça e o braço parecem duas tenazes, que se fecham uma na direcção da outra, mordem o ar, para desta forma aproximarem mais a mensagem do seu destinatário, e vencer a distância entre o aparelho e a mente, aquela distância que a tecnologia ainda não consegue superar, mas isto não será por muito mais tempo, não hão de passar muitos anos e estamos a receber mensagens directamente no cérebro, ou atender chamadas clicando no lóbulo da orelha direita, a esquerda servirá para desligar a chamada. Mas, por enquanto, temos os aparelhos espertos, ou smartphones, que são pequenina, cada vez mais pequenas e finas, ou espalmadas e grandes na sua área de ecrã, que temos de trazer debaixo do braço, na mão, no bolso das calças, ou do casaco, na mochila, sobretudo se se tratar de um objecto da categoria de um iPad, um termo que neste contexto assume duplo sentido, e, neste preciso minuto, em que esses olhos seus passam os por estas linhas minhas, neste preciso instante, novecentos e setenta e quatro mil trezentos e doze utilizadores de telemóveis passam os dedos pelos ecrãs tácteis dos seus telemóveis espertos, pergunto-me se haverá também telemóveis de esperteza saloia, fica a pergunta, enquanto os servidores de telecomunicações, enviam o mesmo número, atrás referido, de mensagens. Isto, dizem- nos as estatísticas, quaisquer umas, escolha as suas, e serão tão válidas como outras quaisquer, porque a estatística é, como o jornalismo, uma questão de perspectiva, um ângulo que se escolhe e partir do qual se efectua uma pesquisa e um estudo, e daí se retira um resultado, mas se outro ângulo for escolhido, outro resultado se obterá, é facto insofismável, quem sabe de estatística sabe do que falo. Portanto, de todas estas pessoas que vão receber mensagens no próximo minuto, é razoável dizer que muitas delas aguardam a respectiva mensagem que vão receber, e que algumas, ou até mesmo muitas, provavelmente, serão esperadas com um certo aperto no coração, ou, no mínimo, um elevado grau de expectativa. Nem é demais dizer, o mundo inteiro dedica-se à actividade de textar, vocábulo inexistente, mas também a própria da acção, ou actividade, o era até há poucos anos, e agora é a coisa mais comum, praticada freneticamente, portanto quem sabe, entrará no uso corrente da expressão oral este novo vocábulo, exprimindo esta nova acção tão muito praticada, ou então um outro, que já se ouve por aí, o mensajar. E quantos às pessoas que não aguardam a chegada de nenhuma mensagem, essas não estão a textar, nem é provável que o venham a fazer nos próximos instantes, embora não se possa dizer com absoluta certeza, mas com mais certeza podemos afirmar que, se não está a textar, ou mensajar, gostaria de vir a fazê-lo com alguém nos próximos minutos. Podemos até aventar que, quem não está a textar não tem com quem trocar mensagens nesse instante, e deve estar profundamente infeliz, ou no mínimo, levemente deseja ter alguém com quem textar, com ardor crescente quanto mais tempo passar, e, se calhar até está neste momento a rever mentalmente a lista de contactos do telemóvel, do Facebook, do Skype, ou do Vibe, ou qualquer outro desses facilitadores, para escolher prontamente a próxima vítima do seu textar. Porém, como dizíamos, não foi por causa de nada disto que Francisco saltou do banco. No fígado dele não havia ânsias de saber quem lhe escrevera. Também não saltou do banco movido por uma vontade incontrolável de conhecer o conteúdo da mensagem, nem sequer por alguma carência afectiva de circunstância. Embora alguma curiosidade ele tivesse, não seria suficientemente forte para o arrancar do anhanço, que o encharcava tanto quanto a transpiração irá ensopar a sua tichãrte elástica, dali a uns minutos, na aula que está prestes a começar. Não. O alerta, que disparou no íntimo do Francisco, foi algo muito mais profundo, despertou nele um instinto, algo que, não sendo nem consciente nem mecânico, dificilmente, ele conseguiria pôr em palavras, se lhe pedíssemos. Como não podemos pedir, vamos imaginar, uma raiva de se ver prostrado daquela maneira, contrário a tudo o que ele sempre foi, simétrico a tudo o que ele aspira a ser, mas que no presente, com um magnetismo invencível, se cola nele como uma peçonha e lhe transforma a atitude, e por o empecer assim tanto, e de uma forma que lhe é tão alheia, inunda-o de um terror.

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