segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Joana Janes_Parte III

O inglês conduz Joana por ruas e vielas de Londres, como o maestro conduz a orquestra. Gesticula de modo muito enfático e distraidamente, as mãos com aqueles movimentos desarticulados do homem que dirige a sinfonia, e abana muito a cabeça enquanto fala animadamente. Ela ri. Os gestos parecem exagerados mas de alguma forma encontram sentido em Alice, alguma espécie de ressonância acontece nela, como a caixa do piano faz à harpa que recebeu no seu interior, Joana vai reagindo, dizendo que sim, que não, que interessante, que chato, rindo sinceramente do fundo da alma. Agora estão na rua Old Compton e seguem para norte até à praça Soho, passam por entre as árvores da miniatura de alameda, mas o verde aqui parece demasiado pouco, as pessoas demasiadas muitas, estranhas formas de dizer, a segunda tão errada, mas tão engraçada. Naquela praça do Soho sentem-se apertados, eles precisam de mais magia, nenhum dos dois o diz, mas, entre silêncios e olhares desviados, lá se vão entendendo, então o inglês, no centro da pequena praça, vira à esquerda, aponta à rua Carlisle, percorrem-na tranquilamente, não há pressas, voltam à direita na rua Dean, novamente para norte, até saírem do Soho, deixam para trás as lojinhas moderninhas e os bares, e agora descem a rua Oxford em direcção ao parque Hyde. Não andam, flutuam como notas de um divertimento de Scarlatti, o tal divertimento. Chegados ao parque Hyde é bem possível que o inglês polido leve Alice ao memorial da princesa, que é um bom lugar para levar princesas. Na sua polidez, o inglês vai apresentando a cidade à estranha da cabeça partida, levou três pontinhos, e joelho esfolado, passam por mais lojas de moda masculina, feminina, unisexo, um Starbucks, um bazar, uns minutos mais tarde cruzam-se com a Nike Town na esquina com a rua Regent, mas Joana não tem vontade de ir ver ténis nem moda deportiva. Estranha mulher esta, pensa o inglês, tem um ar de miúda, que é menos uma cara infantil e mais uma alegria impoluta de menina, porém, tem a segurança da mulher feita, não lhe dá ilusões nenhumas, ele sabe que apesar de estar a fazer de maestro, não é ele quem dirige o destino dos dois, isto ele lê-lhe nos olhos castanhos claros, estranha mulher que parece estar a borrifar-se para coisas de moda. Lentamente, ao longo destas três horas, o inglês, sem se dar conta, tem vindo a pegar e juntar pequeninas peças de puzzle que constroem a Joana Janes que ele vê, de quem ele ainda nem sabe um nome, nem um sequer um falso, talvez seja por isso que dizemos não vemos os outros verdadeiramente como eles são, vemos como desejamos que sejam. Aproximam-se das árvores de um dos mais agradáveis parques do mundo. No parque Hyde, ou Hyde Park se preferes, entraram pelo vértice oposto aos arcos da Rainha Isabel, também conhecida por A Grande Entrada, porque ficava no seguimento da rua Oxford, de onde eles vinham, e os arcos estão do outro lado, não muito longe, Não tem importância, disse Joana, em resposta à súbita aflição do inglês, por falharem a grandiosa entrada. Seguiram pelo meio das bétulas, dos carvalhos e das aveleiras, dos plátanos e das massivas faias, seguiram pelo labirinto desafogado de troncos que, a cada passo, abre espaços para a alma. Pode ter sido o inglês, que, a mais das feições bonitas, em cada gesto inglesmente polido trazia um charme irreverente, com o qual se esforçava por a impressionar, ou pode ter sido a música do silêncio do parque Hyde, cujas árvores eram donas de uma verticalidade corpulenta mas que parecia não pesar, como se a gravidade não actuasse nelas e simplesmente estivessem suspensas sobre aquele ondulado mar de verde, em ligeiro declive, clareira imensa que, como nuvens carregadas que se abrem rapidamente deixando o céu verter sobre nós sol e calor, instila tranquilidade, à qual as fileiras cerradas de árvores somam um silêncio balsâmico, substituindo os sons urbanos de Londres por um bem-estar delicioso, assim fazendo daquele pedaço de terra um pequeno paraíso, fosse por isto, ou fosse por aquilo, ou por concomitância de ambos, Joana Janes apaixonou-se.

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