sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
Joana Janes_Parte II
A segunda consequência, de Joana Janes ter olhado para a esquerda quando devia mirar à direita, foi ter dito ao inglês que se chamava Alice. Como já se disse, não foi premeditado. Não foi uma mentira intencional, não houve maldade, também não houve medo, nem pudor de revelar o seu verdadeiro nome a um estranho. Quando aconteceu sair-lhe o nome Alice da boca, foi um espasmo involuntário que lhe deu na língua. Ou terá sido uma afasia selectiva, pergunta que fica no ar, que talvez algum neurologista pudesse explicar, depois de muitas perguntas cognitivas e outras de um carácter inquiridor mais palpável sobre sensações específicas, Menina Joana sente um formigueiro aqui, e ali, e acolá, e se eu lhe apertar este dedo sente, mas sente com que intensidade, diga de zero a dez quanto, e se eu puser este diapasão a vibrar aqui na pequena depressão entre as clavículas, na base do pescoço, sente-o, quanto e aqui no cotovelo e neste tornozelo também sente vibrar, mais ou menos, e a seguir, depois deste sortido de perguntas, viriam as marteladinhas, com o seu martelinho provocador de reflexos condicionados, em ambos os joelhos, nos dois tornozelos e também os cotovelos vão apanhar as marteladinhas que fazem saltar desarticuladamente os membros, e depois destes exames, incluíndo uma ressonância magnética feita num hospital particular e paga com seguro de saúde privado pago pela mãezinha dela, entre outros exames, que aqui não descrevemos para não provocar bocejos compulsivos em quem nos dá atenção, depois disto tudo concluirá o neurologista que Joana Janes às vezes chama-se de outras maneiras, isto é, apresenta outros nomes próprios e outros apelidos, porque sofre inexplicavelmente de atáxia na broca e tem pequeníssimos ataques de epilépsia, que lhe fritam a memória, quando, e apenas quando vai dizer o seu nome próprio a um estranho, é caso para dizer, o cérebro escreve direito por linhas tortas. Haveria o neurologista de correr o mundo com este caso único e ficar famoso. Entretanto, correm as horas desde o acidente, umas três já passaram. Alice e o inglês já foram ao hospital, continuam juntos, estão a tomar um chá, numa rua do Soho, ainda o inglês não se apresentou formalmente, nem caíu na esparrela do nome dela. Alice, alías, Joana, permite a si própria deixar-se entreter pelo inglês sensual, é um divertimento, um divertimento que pode muito bem estar a ser escrito não por Deus mas por um outro deus chamado Domenico Scarlatti. Estes dois juntos assim, a caminhar pela rua, parecem um divertimento do compositor italiano, transcrito, quem sabe pelo intérprete espanhol Segovia, para duas guitarras, está esta barafunda a passar-se agora num passado presente curvo que permite este bizarro encontro de tanta gente, que nunca se poderia encontrar em vida, de tantas nacionalidades e tempos diferentes, um italiano, um espanhol, um inglês e uma portuguesa juntos porque uma Alice que se chama Joana olhou indevidamente para a direita. Real ou irreal, aquilo que podemos ver se olharmos agora é que estão juntos Alice e o inglês, duas notas, semibreves ou semicolcheias ainda não sabemos, mas unidas, depois de terem sido libertadas da massa de caos infinita onde vive tudo o que ainda não é, tornados reais, subtraídos da corda que é o universo, dedilhadas por uma inteligência superior, com uma elegância sublime, sucedem-se em arco, notas que flutuam no ar, numa sequência de alegria tão grandiloquente como nunca se ouviu, riem, falam, trocam olhares, preenchem o ar com a sua música e, nele, ficam a ondular numa harmonia perfeita como só dois acordes são capazes. Está visto que estes dois estão a dois passos de ficarem perdidos de paixão um pelo outro e, apesar de ter sido acidentalmente, como se viu, ainda agora acabaram de travar conhecimento. Mas isso pouco importa nas coisas do amor.
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