terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Patrícia Inácio

Patrícia Inácio, primeira filha de um casal descendente de montes algarvios, irá esta noite agredir o seu companheiro de facto, Rodrigo Santos, alfacinha de nascimento mas não do coração, que todas as sextas feiras, desde há dois anos, larga a cidade onde trabalha e se dirige ao sul, para passar o fim de semana com a mulher e o filho, na casa dos sogros, onde aqueles vivem. Já se comenta entre familiares e amigos, que ela está à espera que ele se mude de vez para junto da esposa, como lhe é devido, e que descompreende isto, dele hesitar em largar tudo e correr atrás dela. Insinuação que corre em surdina, longe de bocas com tendência para a incontinência verbal. Que caibam responsabilidades à mulher nesta situação, nem pensar, primeiro porque, por definição, os maridos são sempre culpados, por isso têm que ser chamados à razão tantas vezes, e segundo, a prova mais evidente, como se fosse preciso, só não vê quem não quer, ele adora a vida que leva, em Lisboa livre de horários familiares a cumprir, sem passar cartão a ninguém. Rodrigo Santos vive sozinho num apartamento recuperado do bairro alto, com três assoalhadas, onde o casal morou dez anos, onde o filho nasceu, e onde um dia deu consigo órfão de família, metade de uma cara, sem a cara que, anos antes, dizia ser a sua metade, e que jurava ser ele aquele que a completava. Porém, mesmo não tendo pedido por isto, nem a Pratícia Inácio, nem aos céus, mesmo assim, qualquer um pode ver que a situação é mesmo vantajosa para ele, isto diz a mulher, durante a semana, ele pode passar noites fora, ou meter em casa quem lhe apetecer, sem que ela venha a saber, tem um mundo de deboche, que, estando mesmo ao alcance da mão dele, e outras partes do corpo, fica bem longe das vistas da mulher, a situação com que todos os homens sonham, é o costume dizer-se. Enquanto ela só alcança uma mão cheia obrigações, nem sonhar dizer que leva uma boa vida. Mas nem o egocentrismo da mulher, que, salvo nas ocasiões raras em que ele conseguiu fazê-la sentir-se no pedestal, uma vez mais irá torturar emocionalmente Rodrigo Santos esta noite, o sábado e o domingo, de tal forma que lhe deixará novas marcas psicológicas, a somar às anteriores, de que, inconscientemente, se lembrará durante toda a semana seguinte, nem a paciência e humildade do homem que, a mais de alguns ocasionais dias de trabalho, se sacrifica à viagem todos os fins de semana, dirigindo o mais rápido que pode, depois de uma semana de trabalho, não raras vezes, com mais de sessenta horas de labuta intensa, assim questionando, ou pelo menos levantando sombras de dúvida, sobre tudo o que se pensa acerca das suas motivações masculinas quanto a viver sozinho em Lisboa, nem isto nem aquilo fizeram reunir até hoje o casal em terras do sul. Mas Deus é grande.

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