quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
Joana Janes_Parte I
Joana Janes nunca dizia o seu verdadeiro nome. Inventava. Por exemplo, certa vez, a um inglês, com quem manteve uma relação de três anos, um homem de quem gostava muito, na altura até dizia que o amava e que nunca ninguém o amara, nem haveria de amar, tão completamente quanto ela, disse-lhe que se chamava Alice. Não foi uma mentira premeditada. Entre o terem dito a primeira palavra um ao outro, um Olá estranho, e um Olá distraída, no primeiro minuto em que pela primeira vez se viram, e o momento em que ele lhe pediu o nome, Joana Janes não pensou uma única vez que não iria dizer o seu verdadeiro nome ao inglês charmoso e sedutor que a viera socorrer depois de um táxi a atropelar. A culpa foi dos ingleses e a mania de fazerem tudo às avessas dos outros povos, como conduzirem no sentido contrário ao normal, ou então a culpa seria dos adultos que a ensinaram a olhar primeiro para esquerda antes de atravessar uma estrada, e nunca lhe explicaram que um dia que fosse a Londres não se podia esquecer de olhar primeiro para a direita, Pára já, Joana, já te disse para olhares antes de atravessares a rua, disseram-lhe mil vezes os mil pais de acolhimento que Joana Janes teve, mas nunca disseram, Pára já, Joana Janes, e olha para esquerda para ver se vêm carros e, um dia que vás a Londres não te esqueças de olhar primeiro para a direita. São assim estas pequenas coisas que mais tarde vêm a determinar o nosso futuro de maneiras que nem sonhamos. Claro que os mesmos adultos, que a ensinaram a olhar primeiro para esquerda, esses mesmos também lhe ensinaram que logo de seguida, ainda antes de atravessar a estrada, deveria olhar para a direita e depois, novamente, para a esquerda, e, só depois, é que se atravessa a rua, claro, tivesse Joana Janes feito como lhe recomendavam as milhares de recomendações dos mil pais e teria visto o táxi, mesmo olhando primeiro para esquerda, como olhou. Porém, Joana Janes nunca fazia nada do que lhe tinham ensinado, porque, bem, porque simplesmente não fazia. E, assim, vinha a andar pelo passeio numa passada de quem desfila numa passerela, e, tal como acontece num desfile de moda, todas as cabeças, de homens cobiçosos e mulheres, invejosas umas, outras também elas cobiçosas, voltavam-se na sua direcção e, ao aproximar-se da berma da estrada, olhou para esquerda, perdida no seu mundo de príncipes e princesas, de olhos abertos mas sem ver, viu a estrada vazia, pois claro, os automóveis vinham era da direita, e, perdida nesse mundo mais belo que o mundo real, continuou a caminhar com as suas passadas firmes e magnéticas, sem um ligeiro abrandamento sequer, sem ligar ao facto da massa brutal de gente no seu vai e vem diário pela cidade se encontrar parada à espera de algo, era o sinal verde para os peões, mas isso Joana Janes também não viu, furou essa massa, atravessou-se na estrada como se nao fosse mais do que um prolongamento do passeio. Um táxi, que vinha no sentido que os carros devem vir, bateu-lhe em cheio. Um joelho esfolado, uma contusão na cabeça, aparentemente sem grande importância, e um inglês polido, como um verdadeiro inglês deve ser, que insistiu acompanhá-la às urgências do hospital, foram as primeiras consequências de Joana Janes andar na Lua. As segundas, terceiras e quartas consequências, vamos a saber já de seguida.
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